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terça-feira, setembro 08, 2009

O Rio



Da mata no seio umbroso,
No verde seio da serra,
Nasce o rio generoso,
Que é a providência da terra.

Nasce humilde; e, pequenino,
Foge ao sol abrasador;
É um fio d'água, tão fino,
Que desliza sem rumor.

Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Já canta, já tumultua,
Num alegre borburinho.

Agora ao sol, que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas ladeia,
Some-se, torna a surgir.

Recebe outras águas, desce
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.

Agora, indômito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhado
Em saltos e cachoeirões.

E corre, galopa, cheio
De força; de vaga em vaga,
Chega ao vale, alarga o seio,
Cava a terra, o campo alaga . . .

Expande-se, abre-se, ingente,
Por cem léguas, a cantar,
Até que cai finalmente,
No seio vasto do mar . . .

Mas na triunfal majestade
Dessa marcha vitoriosa,
Quanto amor, quanta bondade
Na sua alma generosa!

A cada passo que dava
O nobre rio, feliz
Mais uma árvore criava,
Dando vida a uma raiz.

Quantas dádivas e quantas
Esmolas pelos caminhos!
Matava a sede das plantas
E a sede dos passarinhos . . .

Fonte de força e fartura,
Foi bem, foi saúde e pão:
Dava às cidades frescura,
Fecundidade ao sertão . . .

E um nobre exemplo sadio
Nas suas águas se encerra;
Devemos ser como o rio,
Que é a providência da terra:

Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E, em vez de servir a morte,
Ama a vida, e serve o Amor!

Olavo Bilac

quinta-feira, agosto 20, 2009

Sacrilégio



Como a alma pura,
que o teu corpo encerra,
podes, tão bela e sensual, conter?
Pura demais para viver na terra,
bela demais para no céu viver...

Amo-te assim! - exulta, meu desejo!
É teu grande ideal que te aparece,
oferecendo loucamente o beijo,
e castamente murmurando a prece!

Amo-te assim, a fronte conservando
a parra e o acanto, sob o alvor do véu,
e para a terra os olhos abaixando,
e levantando os braços para o céu.

Ainda quando, abraçados, nos enleva
o amor em que me abraso e em que te abrasas,
vejo o teu resplendor arder na treva
e ouço a palpitação das tuas asas.

Em vão sorrindo, plácidos, brilhantes,
os céus se estendem pelo teu olhar,
e, dentro dele, os serafins errantes
passam nos raios claros do luar.

Em vão! - descerras úmidos, e cheios
de promessas, os lábios sensuais,
e, à flor do peito, empinam-se-te os seios,
ameaçadores como dois punhais.

Como é cheirosa a tua carne ardente!
Toco-a, e sinto ofegar, ansiosa e louca...
Beijo-a, aspiro-a...mas sinto, de repente,
as mãos geladas e gelada a boca:

Parece que uma santa imaculada
desce do altar pela primeira vez,
e pela primeira vez profanada

Embora! hei de adorar-te nesta vida
já que, fraco demais para perde-la,
Não posso um dia, deusa foragida,
Ir amar-te no seio de uma estrela.

Beija-me! Ficarei purificado
com o que de puro no teu beijo houver;
ficarei anjo, tendo-te ao meu lado:
tu, ao meu lado, ficarás mulher.

Que me fulmine o horror desta impiedade!
Serás minha! Sacrílego e profano,
Hei de manchar a tua castidade
e dar-te ao lábios um gemido humano!

E à sombria mudez do santuário
preferirás o cálido fulgor
de um cantinho da terra, solitário,
iluminado pelo meu amor...

Olavo Bilac