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domingo, novembro 29, 2009

O casal que sorria (Londres, 1977)



Eu era casado com Cecília Macdowell,
e - num período em que havia decidido
largar tudo que não me dava entusiasmo
- fomos morar em Londres.

Vivíamos no segundo andar de um pequeno apartamento
em Palace Street, e tínhamos muita dificuldade
em fazer amigos.
Todo noite, porém, um casal jovem,
saindo do pub ao lado, passava diante
de nossa janela e acenava, gritando,
para que descessemos.

Eu ficava preocupadíssimo com os vizinhos;
jamais descia, fingindo que não era comigo.
Mas o casal repetia sempre a gritaria,
mesmo quando ninguém estava na janela.

Certa noite, desci e reclamei do barulho.
Na mesma hora, o riso dos dois transformou-se
em tristeza; pediram desculpas, e foram embora.
Então, naquela noite me dei conta que, embora
buscasse amigos, estava mais preocupad
o com "o que os vizinhos vão dizer".

Resolvi que na proxima vez eu os convidaria
para subir e beber algo conosco.
Fiquei uma semana inteira na janela,
na hora que costumavam passar,
mas não apareceram.
Passei a frequentar o pub, na esperança
de ve-los, mas o dono não os conhecia.
Coloquei um cartaz na janela, escrito
"Chamem novamente".
Tudo que consegui foi que um bando de bêbados,
certa noite, começassem a gritar todos
os palavrões possíveis, e a vizinha
- com quem eu tanto me preocupara
- terminasse reclamando com o proprietário.
Nunca mais os vi.


Paulo Coelho
Globo 129 - "Dos Encontros"

segunda-feira, novembro 16, 2009

Sobre o Ritmo e o Caminho



- Faltou algo em sua palestra
sobre o Caminho de Santiago
- me diz uma peregrina, assim que saímos
da Casa de Galicia, em Madrid,
onde minutos antes eu acabara
de dar uma conferência.

Deve ter faltado muita coisa,
pois minha intenção ali era de apena
s compartilhar um pouco minha experiência.

Mesmo assim, convido-a para tomar um café,
curioso em saber o que ela considera
como uma omissão importante.

E Begoña – este é seu nome – me diz:
- Tenho notado que a maioria dos peregrinos,
seja no Caminho de Santiago, seja nos caminhos
da vida, sempre procura seguir
o ritmo dos outros.

"No início de minha peregrinação,
procurava ir junto com meu grupo.
Me cansava, exigia de meu corpo mais
do que podia dar, vivia tensa,
terminei tendo problemas nos
tendões do pé esquerdo.
Impossibilitada de andar por dois
dias, entendi que só conseguiria
chegar a Santiago se obedecesse
meu ritmo pessoal.

"Demorei mais que os outros,
tive que andar sozinha por muitos trechos
mas foi só porque respeitei meu próprio
ritmo que consegui completar o caminho.
Desde então aplico isso a tudo que preciso
fazer na vida: respeito o meu tempo".

Globo 122 - Fragmentos X

quarta-feira, novembro 11, 2009

O Mestre...

O Mestre Não Sofre com os Maus Discípulos?



Um discípulo perguntou a Firoz:

- A simples presença de um mestre,
faz com que todo tipo de curioso se aproxime,
para descobrir algo do que se possam beneficiar.

Isto não pode ser prejudicial e negativo?
Isto não pode desviar o mestre do seu caminho,
ou fazer com que sofra porque não conseguiu
ensinar o que queria?

Firoz, o mestre sufi, respondeu:

- A visão de um abacateiro carregado de frutas
desperta o apetite de todos que passam por perto.
Se alguém deseja saciar sua fome alem da sua capacidade,
termina comendo mais abacates que necessário, e passa mal.
Entretanto, isto não causa nenhum tipo de indigestão
ao dono do abacateiro.

"O mesmo se passa com a Busca.
O caminho precisa estar aberto para todos;
mas Deus se encarrega de colocar os limites
de cada um".

em Globo 111
Mestres e Discípulos

quinta-feira, novembro 05, 2009

O Exorcismo



Um homem chamou um padre
para fazer um exorcismo e
m sua casa.
Foi morar num hotel,
e deixou-o entregue ao trabalho.

O sacerdote passou alguns dias
dormindo no lugar mal-asssombrado,
colocou água-benta em todos os quartos,
fez orações, e - quando deu sua tarefa
por encerrada - chamou de volta o proprietário,
dizendo que o resultado fora fantástico.

- Quantos demonios voce exorcizou?
– quis saber ele.
- Nenhum.
- E quantos viu na minha casa?
- Nenhum.
- Então com o resultado
pode ter sido fantástico?
- Quando se está lidando
com as forças do mal,
nenhum é mais do que suficiente.

Paulo Coelho
em Globo 109

domingo, outubro 25, 2009

Moisés divide as águas



"As vezes a gente se acostuma com o que vê nos filmes,
e termina esquecendo a verdadeira historia",
diz um amigo, enquanto olhamos juntos
o porto de Miami.

"Lembra-se dos "Dez Mandamentos? "
Claro que me lembro.
Moisés - Charton Heston - em determinado momento
levanta seu bastão, as águas se dividem,
e o povo hebreu atravessa a grande água.

"Na Bíblia é diferente". Comenta meu amigo.
"Ali, Deus ordena a Moisés:
"diz aos filhos de Israel que marchem".
E só depois que começam a andar
é que Moisés levanta o bastão,
e o Mar Vermelho se abre".

"Só a coragem no caminho
faz com que o caminho se manifeste".

Paulo Coelho

terça-feira, outubro 20, 2009

Dona Baratinha e a moeda



Uma velha estória infantil
nos fala de D. Baratinha
- que encontrou uma moeda ao varrer sua casa.

Depois de ficar muito tempo na janela,
escolhendo o pretendente adequado
aos seus medos e anseios,
terminou casando-se com João Ratão.
Como todos sabemos,
João Ratão caiu na panela do feijão.

Muitas vezes em nossas vidas,
encontramos uma moeda que nos é dada pelo destino,
e achamos que este é o único tesouro de nossas vidas.
Terminamos por valoriza-lo tanto, que o destino
- o mesmo que nos entregou esta moeda
- se encarrega de toma-la de volta.

Quem tem muito medo de escolher,
sempre escolhe errado.



Paulo Coelho
Globo 108 Diario VII

quinta-feira, outubro 08, 2009

Um conto de fadas



Maria Emilia Voss, uma peregrina de Santiago,
conta a seguinte história:

Por volta do ano 250 a.C., na China antiga,
um certo príncipe da região de Thing-Zda
estava às vésperas de ser coroado imperador;
antes, porém, de acordo com a lei,
ele deveria se casar.

Como se tratava de escolher a futura imperatriz,
o príncipe precisava encontrar uma moça
em quem pudesse confiar cegamente.

Aconselhado por um sábio, ele resolveu convocar
todas as jovens da região, para encontrar
aquela que fosse a mais digna.

Uma velha senhora, serva do palácio
há muitos anos, ouvindo os comentários
sobre os preparativos para a audiência,
sentiu uma grande tristeza
- pois sua filha alimentava
um amor secreto pelo príncipe.

Ao chegar em casa e relatar o fato à jovem,
espantou-se ao ouvir que ela também
prtendia comparecer
A senhora ficou desesperada:

- Minha filha, o que você fará lá?
Estarão presentes apenas as mais belas
e ricas moças da corte.
Tire esta idéia insensata da cabeça!
Eu sei que você deve estar sofrendo,
mas não transforme o sofrimento em uma loucura!

E a filha respondeu:

- Querida mãe, não estou sofrendo
e muito menos fiquei louca;
sei que jamais poderei ser a escolhida,
mas é minha oportunidade de ficar pelo menos
alguns momentos perto do príncipe,
isto já me torna feliz - mesmo sabendo
que meu destino é outro.

À noite, quando a jovem chegou ao palácio,
lá estavam efetivamente todas as mais belas moças,
com as mais belas roupas, as mais belas jóias,
e dispostas a lutar de qualquer jeito
pela oportunidade que lhes era oferecida.

Cercado de sua corte, o príncipe anunciou
o desafio:
- Darei para cada uma de vocês uma semente.
Aquela que, dentro de seis meses,
me trouxer a flor mais linda,
será a futura imperatriz da China.

A moça pegou a sua semente, plantou-a num vaso,
e como não tinha muita habilidade nas artes
da jardinagem, cuidava terra com muita paciência
e ternura - pois pensava que, se a beleza das flores
surgisse na mesma extensão de seu amor,
ela não precisava se preocupar com o resultado.

Passaram-se três meses e nada brotou.
A jovem tentou um pouco de tudo,
falou com lavradores e camponeses -
que ensinaram os mais variados métodos de cultivo
- mas não conseguiu nenhum deu resultado.
A cada dia sentia-se mais longe o seu sonho,
embora o seu amor continuasse tão vivo como antes.

Por fim, os seis meses se esgotaram,
e nada nasceu em seu vaso.
Mesmo sabendo que nada tinha para mostrar,
estava consciente de seu esforço
e dedicação durante todo aquele tempo,
de modo que comunicou a sua mãe que retornaria
ao palácio, na data e hora combinadas.

Secretamente, sabia que este seria seu último
encontro com o bem-amado, e não pretendia perde-lo
por nada neste mundo.

Chegou o dia da nova audiência.
A moça apareceu com seu vaso sem planta,
e viu que todas as outras pretendentes
tinham conseguido bons resultados:
cada uma tinha uma flor mais bela do que a outra,
das mais variadas formas e cores.

Finalmente vem o momento esperado:
o príncipe entra e observa cada uma das pretendentes
com muito cuidado e atenção.
Após passar por todas, ele anuncia o resultado
- e indica a filha de sua serva como sua nova esposa.

Todos os presentes começam a reclamar,
dizendo que ele escolheu justamente aquela
que não tinha conseguido cultivar nenhuma planta.

Foi então que, calmamente, o príncipe
esclareceu a razão do seu desafio:

- Esta foi a única que cultivou a flor
que a tornou digna de se tornar uma imperatriz:
a flor da honestidade.
Todas as sementes que entreguei
eram estéreis, e não podiam nascer de jeito nenhum.


Paulo Coelho
em o Globo 127

segunda-feira, outubro 05, 2009

Usar os dois bolsos



Um discípulo comentou com o rabino Bounam de Pssiskhe:
- O mundo material parece sufocar o mundo espiritual.
- Sua calça tem dois bolsos - disse Bouhnam.

- Escreva no direito:
o mundo foi criado apenas para mim.

No bolso esquerdo, escreva:
eu não sou nada além de pó e cinzas.

"Divide bem teu dinheiro nestes dois lugares.
Quando vires a miséria e a injustiça,
lembra que o mundo existe apenas
para que possas manifestar tua bondade,
e usa o dinheiro do bolso direito.

Quando estiveres tentado a adquirir coisas
que não te fazem a menor falta,
lembra do que está escrito no teu bolso esquerdo,
e pensa várias vezes antes de gasta-lo.
Desta maneira, o mundo material
nunca sufocará o mundo espiritual".


Paulo Coelho
Globo 162 - Histórias Sobre Ação

quinta-feira, outubro 01, 2009

O Poder da Palavra





De todas as poderosas armas de destruição
que o homem foi capaz de inventar,
a mais terrível - e a mais covarde - é a palavra.

Punhais e armas de fogo deixam vestígios de sangue.
Bombas abalam edifícios e ruas.
Venenos terminam sendo detectados.
Mas a palavra destruidora consegue
despertar o Mal sem deixar pistas.

Crianças são condicionadas durante anos
pelos pais, artistas são impiedosamente criticados,
mulheres são sistematicamente massacradas
por comentários de seus maridos, fiéis são mantidos
longe da religião por aqueles que se julgam
capazes de interpretar a voz de Deus.

Procure ver se você está utilizando esta arma.
Procure ver se estão utilizando esta arma em você.
E não permita nenhuma destas duas coisas.


Paulo Coelho
em Fragmentos de um diário inexistente - VII

terça-feira, setembro 29, 2009

O Poço e o seu Segredo





Numa pequena aldeia de Marrocos,
um homem contemplava o único poço
de toda a região.
Um garoto aproximou-se:

- O que tem lá dentro? - quis saber
- Deus.
- Deus está escondido dentro deste poço?
- Está

- Quero ver - disse o garoto, desconfiado.

O velho pegou-o no colo e ajudou-o a debruçar-se
na borda do poço.
Refletido na água, o menino pode ver
o seu próprio rosto.
- Mas este sou eu - gritou.
- Isso mesmo - disse o homem,
tornando a colocar delicadamente
o menino no chão.
Agora você sabe onde Deus está escondido.



Paulo Coelho
Das muitas faces de Deus
em Globo 153

sábado, setembro 26, 2009

O Jogo de Xadrez



O jovem disse ao abade do mosteiro:

- Bem que eu gostaria de ser um monge,
mas nada aprendi de importante na vida.
Tudo que meu pai me ensinou foi jogar xadrez,
que não serve para iluminação.

Além do mais, aprendi que qualquer jogo é um pecado.

- Pode ser um pecado mas também pode ser uma diversão,
e quem sabe este mosteiro não está precisando
um pouco de ambos - foi a resposta.

O abade pediu um tabuleiro de xadrez,
chamou um monge, e mandou-o jogar com o rapaz.

Mas antes da partida começar, acrescentou:

- Embora precisemos de diversão, não podemos permitir
que todo mundo fique jogando xadrez.
Então, teremos apenas o melhor dos jogadores aqui;
se nosso monge perder, ele sairá do mosteiro,
e abrirá uma vaga para voce.

O abade falava sério. O rapaz sentiu que jogava
por sua vida, e suou frio;
o tabuleiro tornou-se o centro do mundo.

O monge começou a perder. O rapaz atacou,
mas então viu o olhar de santidade do outro;
a partir deste momento, começou a jogar errado
de propósito. Afinal de contas preferia perder,
porque o monge podia ser mais útil ao mundo.

De repente, o abade jogou o tabuleiro no chão.

- Voce aprendeu muito mais do que lhe ensinaram - disse.
- Concentrou-se o suficiente para vencer,
foi capaz de lutar pelo que desejava.
Em seguida, teve compaixão, e disposição
para sacrificar-se em nome de uma nobre causa.

Seja bem-vindo ao mosteiro, porque sabe equilibrar
a disciplina com a misericórdia.



Paulo Coelho
em Globo 114 - Pecados

quinta-feira, setembro 17, 2009

Porque deixar o homem para o sexto dia

>

Um grupo de sábios reuniu-se num castelo em Akbar,
para discutir a obra de Deus;
queriam saber por que havia deixado
para criar o homem no sexto dia.

- Ele pensava em organizar bem o Universo,
de modo que pudessemos ter todas as maravilhas
a nossa disposição - disse um.

- Ele quis primeiro fazer alguns testes com animais,
de modo a não cometer os mesmos erros conosco
- argumentou outro.

Um sábio judeu apareceu para o encontro.
O tema da discussão lhe foi comunicado:
"na sua opinião, por que Deus deixou
para criar o homem no último dia? "

- Muito simples - comentou o sábio.
- Para que, quando fossemos tocados pelo orgulho,
pudessemos refletir:
até mesmo um simples mosquito
teve prioridade no trabalho Divino.


Paulo Coelho
Globo 125 - Humildade

segunda-feira, setembro 14, 2009

Não há dois caminhos iguais




Em um dos seus raros escritos,
o sábio sufi Hafik comenta a busca espiritual.

"Aceite com sabedoria o fato de que
o Caminho está cheio de contradições.

O Caminho muitas vezes nega-se a si mesmo,
para estimular o viajante a descobrir
o que existe além da próxima curva.

" Se dois companheiros de jornada
estão seguindo o mesmo método,
isto significa que um deles está na pista falsa.

Porque não há fórmulas para se atingir
a verdade do Caminho, e cada um precisa correr
os riscos de seus próprios passos.

"Só os ignorantes procuram imitar
o comportamento dos outros.
Os homens inteligentes não perdem seu tempo com isto,
e desenvolvem suas habilidades pessoais;
sabem que não existem duas folhas iguais
numa floresta de cem mil árvores.
Não existem duas viagens iguais no mesmo Caminho"

Paulo Coelho
Fragmentos de um diário inexistente - VII

domingo, setembro 13, 2009

Apolo e Daphne



O deus Apolo persegue a ninfa Daphne pelo bosque.
Está apaixonado por ela, mas Daphne
- sempre cortejada por todos -
não aguenta mais o seu próprio brilho,
e pede ajuda aos deuses, dizendo:

" Destroi esta beleza que nunca me deixa em paz"

Os deuses escutam o apelo de Daphne
e a transformam numa árvore, o loureiro.
Apolo não consegue mais encontra-la,
pois agora ela é apenas uma parte da vegetação.

Daphne agiu de uma maneira
que todos nós conhecemos bem:
muitas vezes matamos nossos talentos,
porque não sabemos o que fazer com eles.

É mais confortável a mediocridade
de ser apenas "mais um", do que a luta
para mostrar tudo aquilo do que somos capazes
de fazer com os dons que Deus nos deu.

Paulo Coelho em
Fragmentos de um diário inexistente - VII

sábado, setembro 12, 2009

Como fazer o que quero




Assim que morreu, Juan encontrou-se
num belíssimo lugar, rodeado pelo conforto
e beleza que sonhava.

Um sujeito vestido de branco aproximou-se:

- Você tem direito ao que quiser:
qualquer alimento, prazer, diversão - disse.

Encantado, Juan fez tudo que sonhou
fazer durante a vida.

Depois de muitos anos de prazeres,
procurou o sujeito de branco:

- Já experimentei o que tinha vontade.
Preciso agora de um trabalho, para me sentir útil.

- Sinto muito - disse o sujeito de branco.
Mas esta é a única coisa que não posso conseguir;
aqui não há trabalho.

- Que terrível! - irritou-se Juan.
- Passarei a eternidade morrendo de tédio!

Preferia mil vezes estar no inferno!
O homem de branco aproximou-se,
e disse em voz baixa:
- E onde o senhor pensa que está?


Paulo Coelho
em Conversas com Deus e o Diabo

quarta-feira, setembro 09, 2009

Tudo Vira Pó





As festas de Valência, na Espanha, têm um curioso
ritual, cuja origem está na antiga comunidade
dos carpinteiros.

Durante o ano inteiro, artesãos e artistas
constróem esculturas gigantescas em madeira.

Na semana de festa, levam estas esculturas
para o centro da praça principal.

As pessoas passam, comentam, se deslumbram
e se comovem diante de tanta criatividade.

Então, no dia de São José,
todas estas obras de arte - exceto uma - são queimadas
numa gigantesca fogueira, diante de milhares de curiosos.

- Por que tanto trabalho a toa? - perguntou uma
inglesa ao meu lado, enquanto as imensas labaredas
subiam aos céus.

- Você também vai acabar um dia - respondeu uma
espanhola. - Já imaginou se, neste momento, algum anjo
perguntasse a Deus: "porque tanto trabalho a toa?"



Paulo Coelho
Globo 122

segunda-feira, setembro 07, 2009

Possuir



Quem tentar possuir uma flor,
verá sua beleza murchando.
Mas quem apenas olhar uma flor num campo,
permanecerá para sempre com ela.

Você nunca será minha
e por isso terei você para sempre.

Paulo Coelho

quinta-feira, setembro 03, 2009

Os Desejos Negativos



O discípulo disse ao mestre:
- Tenho passado grande parte do meu dia pensando
coisas que não devia pensar,
desejando coisas que não devia desejar,
fazendo planos que não devia fazer.

O mestre convidou o discípulo para um passeio
na floresta perto de sua casa;
no caminho, apontou uma planta
e perguntou se o discípulo sabia o que era.

- Beladona - disse do discípulo.
- Pode matar quem comer suas folhas.

- Mas não pode matar quem simplesmente a contempla.
Da mesma maneira, os desejos negativos
não podem causar nenhum mal
- se você não se deixar seduzir por eles.




Paulo Coelho
Publicação Globo 110

quarta-feira, setembro 02, 2009

De Árvores e Cidades



No deserto de Mojave, é freqüente encontramos
as famosas cidades-fantasmas: construídas
perto de minas de ouro;
eram abandonadas quando todo o produto da terra
tinha sido extraído. Haviam cumprindo seu papel,
e não tinha mais sentido continuar sendo habitadas.

Quando passeamos por uma floresta, também vemos
árvores que - uma vez cumprido seu papel,
terminaram caindo.
Mas, diferente das cidades-fantasmas,
o que aconteceu?
Abriram espaço para que a luz penetrasse,
fertilizaram o solo, e tem seus troncos
cobertos de vegetação nova.

As nossa velhice vai depender da maneira
que vivemos. Podemos terminar como uma cidade - fantasma.
Ou então como uma generosa árvore,
que continua a ser importante,
mesmo depois de caída por terra.



Paulo Coelho em
Fragmentos de um diário inexistente - X

segunda-feira, agosto 31, 2009

O Lugar dos Pecadores



O rabino Wolf entrou por acaso em um bar;
algumas pessoas bebiam, outra jogavam cartas,
e o ambiente parecia carregado.

O rabino saiu sem comentar nada;
um jovem veio atrás dele.

- Sei que não gostou do que viu
- disse o rapaz. - Ali só vivem os pecadores.
- Gostei do que vi - disse Wolf.

- São homens que estão aprendendo a perder tudo.
Quando tiverem mais nada de material neste mundo,
só lhes sobrará voltar-se para Deus.

E, a partir deste momento,
que servos excelentes serão!

Paulo Coelho
O Globo 114