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quinta-feira, setembro 24, 2009

Renda-se



"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece
como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender,
viver ultrapassa qualquer entendimento."

Clarice Lispector

terça-feira, setembro 08, 2009

O Rio



Da mata no seio umbroso,
No verde seio da serra,
Nasce o rio generoso,
Que é a providência da terra.

Nasce humilde; e, pequenino,
Foge ao sol abrasador;
É um fio d'água, tão fino,
Que desliza sem rumor.

Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Já canta, já tumultua,
Num alegre borburinho.

Agora ao sol, que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas ladeia,
Some-se, torna a surgir.

Recebe outras águas, desce
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.

Agora, indômito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhado
Em saltos e cachoeirões.

E corre, galopa, cheio
De força; de vaga em vaga,
Chega ao vale, alarga o seio,
Cava a terra, o campo alaga . . .

Expande-se, abre-se, ingente,
Por cem léguas, a cantar,
Até que cai finalmente,
No seio vasto do mar . . .

Mas na triunfal majestade
Dessa marcha vitoriosa,
Quanto amor, quanta bondade
Na sua alma generosa!

A cada passo que dava
O nobre rio, feliz
Mais uma árvore criava,
Dando vida a uma raiz.

Quantas dádivas e quantas
Esmolas pelos caminhos!
Matava a sede das plantas
E a sede dos passarinhos . . .

Fonte de força e fartura,
Foi bem, foi saúde e pão:
Dava às cidades frescura,
Fecundidade ao sertão . . .

E um nobre exemplo sadio
Nas suas águas se encerra;
Devemos ser como o rio,
Que é a providência da terra:

Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E, em vez de servir a morte,
Ama a vida, e serve o Amor!

Olavo Bilac

terça-feira, setembro 01, 2009

Das Utopias





Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

Mario Quintana - Espelho Mágico

terça-feira, agosto 25, 2009

Poesia






Tu ensinaste-me as palavras simples
as palavras belas
as palavras justas
E fizeste com que eu já não saiba
falar de outra maneira.
O amor substitui
o Sol - que tudo ilumina.

Sonhar contigo é quase como
saber que existo para além de mim.
(...)

Porque será
que quanto mais repartimos
o coração
maior e mais nosso ele fica?

======================
Raul de Carvalho
(1920 - 1984)

segunda-feira, agosto 24, 2009

Escreve-me!



Escreve-me!
Ainda que seja só
uma palavra, uma palavra apenas,
suave como o teu nome e casta
como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me!
Há tanto, há tanto tempo
que te não vejo, amor!
Meu coração morreu já,
e no mundo aos pobres mortos
ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!"
Cinco letras pequeninas,
folhas leves e tenras de boninas,
um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

domingo, agosto 23, 2009

Folhas de Rosa



Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo ...

E falo-lhes d'amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente...
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente...

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m'embriaga

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que refletia outrora tantos risos,
E agora reflete apenas pranto,

E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado...

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...

sexta-feira, agosto 21, 2009

Ausência



Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
de me veres eternamente exausto.

No entanto a tua presença
é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser
tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como nódoa do passado.

Eu deixarei...
tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada.

Mas tu não saberás
que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face
na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos
da névoa suspensos no espaço.

E eu trouxe até mim a misteriosa essência
do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros
nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém
porque poderei partir.

E todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente,
a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.


Vinícius de Morais

quinta-feira, agosto 20, 2009

Sacrilégio



Como a alma pura,
que o teu corpo encerra,
podes, tão bela e sensual, conter?
Pura demais para viver na terra,
bela demais para no céu viver...

Amo-te assim! - exulta, meu desejo!
É teu grande ideal que te aparece,
oferecendo loucamente o beijo,
e castamente murmurando a prece!

Amo-te assim, a fronte conservando
a parra e o acanto, sob o alvor do véu,
e para a terra os olhos abaixando,
e levantando os braços para o céu.

Ainda quando, abraçados, nos enleva
o amor em que me abraso e em que te abrasas,
vejo o teu resplendor arder na treva
e ouço a palpitação das tuas asas.

Em vão sorrindo, plácidos, brilhantes,
os céus se estendem pelo teu olhar,
e, dentro dele, os serafins errantes
passam nos raios claros do luar.

Em vão! - descerras úmidos, e cheios
de promessas, os lábios sensuais,
e, à flor do peito, empinam-se-te os seios,
ameaçadores como dois punhais.

Como é cheirosa a tua carne ardente!
Toco-a, e sinto ofegar, ansiosa e louca...
Beijo-a, aspiro-a...mas sinto, de repente,
as mãos geladas e gelada a boca:

Parece que uma santa imaculada
desce do altar pela primeira vez,
e pela primeira vez profanada

Embora! hei de adorar-te nesta vida
já que, fraco demais para perde-la,
Não posso um dia, deusa foragida,
Ir amar-te no seio de uma estrela.

Beija-me! Ficarei purificado
com o que de puro no teu beijo houver;
ficarei anjo, tendo-te ao meu lado:
tu, ao meu lado, ficarás mulher.

Que me fulmine o horror desta impiedade!
Serás minha! Sacrílego e profano,
Hei de manchar a tua castidade
e dar-te ao lábios um gemido humano!

E à sombria mudez do santuário
preferirás o cálido fulgor
de um cantinho da terra, solitário,
iluminado pelo meu amor...

Olavo Bilac

sexta-feira, julho 17, 2009

Poemeto Erótico



Teu corpo é tudo o que brilha
Teu corpo é tudo o que cheira
Rosa, flor de laranjeira
Teu corpo, claro e perfeito
Teu corpo de maravilha
Quero possui-lo no leito
estreito da redondilha

Teu corpo, branco e macio
É como um véu de noivado.
Teu corpo é pomo doirado,
Rosal queimado de estio
Desfalecido em perfume
Teu corpo é a brasa do lume

Teu corpo é chama
E flameja como à tarde os horizontes
É puro como nas fontes
a água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama,
volúpia da água e da chama

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira.

A todo momento o vejo
Teu corpo,
a única ilha no oceano do meu desejo.

Que não seja preciso mais
do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê - la florescer
Porque metade de mim é a platéia
e a outra metade é canção

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
e a outra metade...também.

Autor Manoel Bandeira

quinta-feira, julho 09, 2009

Quem Deixará, do Verde, Prado Umbroso



-Miguel de Cervantes-
Tradução de Anderson Braga Horta



Quem deixará, do verde prado umbroso,
as frescas ervas e as lustrais nascentes?
Quem, de seguir com passos diligentes
a solta lebre, o javali cerdoso?

Quem, com o canto amigo e sonoroso,
não prenderá as aves inocentes?
Quem, nas horas da sesta, horas ardentes,
não buscará nas selvas o repouso,


por seguir os incêndios, os temores,
os zelos, iras, raivas, mortes, teias
do falso amor que tanto aflige o mundo?


Do campo são e hão sido meus amores,
rosas são e jasmins minhas cadeias,
livre nasci, e em livre ser me fundo.


De Poetas do Século de Ouro Espanhol

terça-feira, julho 07, 2009

O Lado Bom



Quero ser uma ilha,

um pouco de paisagem,

uma janela aberta,

uma montanha ao longe,

um aceno de mar.


Quando precisares de sonho,

de um canto de beleza,

de um pouco de silêncio,

ou simplesmente de sol e de ar.


Quero ser o lado bom

em que pensas,

isto que intimamente

a gente deseja

mas nem sempre diz

quero ser, naquela hora,

o que sentes falta

para seres feliz.


Que quando pensares

em fugir de todos ou de ti,

enfim penses em mim...


J G de Araujo Jorge

A Hora do Amor



Completamente bêbado de amor estou agora,
levantaram-se em minha alma as doçuras perdidas
as trêmulas campanas de uma vida sonora
carregam os celestes cansaços desta vida.

Vem crepúsculo morno, vem aurora rosada,
vem fragância de beijos, vem calor de mulher.
Tanto tempo já faz que não espero a amada,
que me mordem os cães do desejo e da sede.

Mas se bêbado vou de amor já não me importa,
a esperança longínqüa que não pode volver,
as minhas rosas levo se a vida me for curta,
é claro!, os meus rosais sei que vão florescer.

Se porém levo todo os meus rosais fechados
dá-me fraterna mão, dá-me um fruto Senhor,
da-me dois seios mornos e dois olhos amados,
porque sem eles, ai, que me vai ser do amor?

Pablo Neruda

domingo, julho 05, 2009

Fernando Pessoa



"Sou um guardador de rebanhos,
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

domingo, junho 14, 2009

Sonho Vago



-Florbela Espanca-

Um sonho alado que nasceu num instante,
Erguido ao alto em horas de demência...
Gotas de água que tombam em cadência
Na minh'alma tristíssima, distante...

Onde está ele, o Desejado? O Infante?
O que há-de vir e amar-me em doida ardência?
O das horas de mágoa e penitência?
O Príncipe Encantado? O Eleito? O Amante?

E neste sonho eu já nem sei quem sou...
O brando mergulhar dum longo beijo
Que não chegou a dar-se e que passou...
Um fogo-fátuo rútilo, talvez...
E eu ando a procurar-te e já te vejo!
E tu já me encontraste e não me vês!...

-Florbela Espanca-

sexta-feira, junho 12, 2009

Bilhete



Se tu me amas,
ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres,
enfim,

.....tem de ser bem devagarinho,
.....amada,

.....que a vida é breve,
.....e o amor
.....mais breve ainda.

Mario Quintana

quinta-feira, junho 11, 2009

O Correr da Vida



O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim, esquenta e esfria,
aperta e depois afrouxa e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
O que Deus quer é ver a gente aprendendo
a ser capaz de ficar alegre e amar, no meio da alegria.
E ainda mais alegre no meio da tristeza.
Todo caminho da gente é resvaloso,
mas cair não prejudica demais, a gente levanta,
a gente sobe, a gente volta.


Autor: Guimarães Rosa
excerto de "Grande Sertão Veredas

quarta-feira, junho 10, 2009

Sóror Saudade



A Américo Durão
-Florbela Espanca-


Irmã, Sóror Saudade me chamaste...
E na minh'alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fosse
A luz do próprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de Outono o murmuraste,
Toda a mágoa do Outono ele me trouxe,
Jamais me hão de chamar outro mais doce.
Com ele bem mais triste me tornaste...


E baixinho, na alma da minh'alma,
Como bênção de sol que afaga e acalma,
Nas horas más de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo
Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me deste: "Irmã, Sóror Saudade..."



Florbela Espanca
do Livro Sóror Saudade

segunda-feira, junho 08, 2009

Versos



-Florbela Espanca-

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar,
Um verso é o teu sorriso e os de Dante
Eram o teu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês...

sexta-feira, junho 05, 2009

Cirsântemos



-Florbela Espanca-


Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d´amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais...
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!

sábado, maio 30, 2009

O Verbo Amar



J G de Araujo Jorge

Te amei: era de longe que te olhava
e de longe me olhavas vagamente...
Ah, quanta coisa nesse tempo a gente sente,
que a alma da gente faz escrava.

Te amava: como inquieto adolescente,
tremendo ao te enlaçar, e te enlaçava
adivinhando esse mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava.

Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...

Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!

J G de Araujo Jorge
do livro -Bazar de Ritmos- 1935